Cão
que não ladra...
[Thedy Corrêa]
Os
dentes do cachorro começaram a perfurar
minha perna atravessando o grosso tecido
de minha calça e alcançando
a carne macia da batata-da-perna, ou panturrilha,
como costumam chamar os locutores de futebol..
A dor era lancinante e a sensação
do sangue escorrendo e chegando até
meus sapatos era semelhante àquela
que experimentei quando de minha última
crise de incontinência urinária.
Era uma Oktoberfest, eu bebi muito além
do que meus rins tinham capacidade de filtrar.
O banheiro era longe e a fila era enorme.
O pior mesmo foi dançar o resto da
noite com os sapatos encharcados. Mas voltando
ao cachorro. Os dentes caninos causaram
um estrago, mas não foi o suficiente
para me fazer esquecer o latejar do enorme
hematoma que crescia em minha testa, logo
acima de meu olho direito. Um galo e tanto.
Arrastei-me fazendo, um enorme esforço,
em direção a uma grande pedra
que estava próxima. Quando a alcancei,
reuni todas minhas forças e cheguei
a quebrá-la com a força do
golpe que desferi contra a têmpora
do meu agressor. Ele largou minha perna
e eu fiquei observando seu movimento trôpego
até que ele finalmente desabasse
inerte como um pelego escuro e sem vida.
Um pelego seria bem vindo, já que
o frio era cortante e eu estava despido
da cintura para cima. Tentei recuperar a
normalidade de minha freqüência
respiratória, apesar do ar gelado
invadir minha boca e pulmões causando-me
calafrios. Eu tinha que sair imediatamente
do pátio daquela casa. Conhecia muito
bem o seu proprietário e sabia que
se ele me descobrisse ali, minhas chances
de voltar a dançar em qualquer outra
Oktoberfest em minha vida seriam zero. Agradeci
à voracidade silenciosa do cão
que preferiu o ataque surdo a minha perna
ao alarme. Tenho a mórbida certeza
de que um encontro com o dono da casa seria
ainda muito pior. Eu tinha que sair dali.
Resolvi me concentrar na tarefa de levantar
do chão. Respirei fundo e fechei
os olhos - só o esquerdo, pois o
direito já não abria mais
devido ao golpe que recebi há menos
de uma hora atrás e que inchava insistentemente.
Pelo menos não sangrava. Fechei o
olho e comecei a pensar em como havia chegado
àquela situação.
[Cássia de Oliveira Matos]
Enfrentei
o frio e resolvi tentar encontrar o ônibus
da excursão. Não enxergava
quase nada com aquele maldito olho restante.
Ao menos o frio resolveu amortecer minha
perna de vez. Mal sentia o próprio
couro, quem dirá a perna que já
não estava lá estas coisas.
Me arrastei, me arrastei e tive a impressão
de estar onde o ônibus teria estacionado.
O sol já raiava e não tinha
ninguém, até o estacionamento
tava meio vazio. Cadê a "merda
do ônibus"? Fui perguntar na
portaria da Oktober e o guarda me olhou
com cara de quem iria me chamar para a delegacia,
depois perguntou: - O que aconteceu contigo,
uma vez! - Nem pergunta, tchê. Tu
viu um ônibus, de excursão
de Porto Alegre que tava mais ou menos ali.
- disse apontando. - Já foi embora,
faz, ihhhh! Olha! Pela sua cara a coisa
foi muito ruim! Eu moro aqui perto. O senhor
não quer ir até lá
para tomar um banho, ligar para casa ou
até para um médico. Sua perna
tá horrível. - É foi
um cachorro ou um ogro noturno, nem me lembro.-
respondi e segui a indicação
do guarda e cheguei num chalé de
madeira, meio velho, mas com a famosa limpeza
alemã sem falar das flores na entrada.
Deixando claro que mais senti o cheiro das
flores e de coisa limpa do que vi, pois
o olho, continuava fechado e o outro a gora
remelento. Quando bati, logo descobri porque
sofrera, tanto. Era para merecer aquele
cheiro de waffel e o rosto que, depois de
lavar a cara conseguir admirar. Eta alemoazinha
bonita. Ela era filha do guarda. Estudava
na universidade pública de lá,
que lembrar do nome já é me
pedir demais. Irma, cuidou de mim, me emprestou
umas roupas largas do pai dela e quando
me disse para ligar para o hotel eu caí
num abismo de realidade. Volta excomungado.
Felicidade de sofrenildo dura pouco mesmo.
Liguei. O guia já havia ligado para
a polícia atrás de mim, maior
mico. E tavam mandando o ônibus me
buscar. Fui, né. Ah! Ficou com pena?
Não precisa, pois não é
que minha Frida Irma, resolveu vir para
a UFRGS de intercâmbio. Eta... Mas
é bonita minha alemoazinha.
[manson]
Não
me lembro de ter visto em minha vida uma
alemoa tão bonita. Nós nos
encontrávamos todos os dias no campus,
pois os prédios onde estudávamos
não eram muito distantes. Ela cursava
química e eu física. Sempre
que a via lembrava-me daquele maldito cachorro
que me mordera, lembrava-me que se não
fosse aquele cachorro eu não conheceria
a mais belas das alemoas que conheci. Alimentei
por muito tempo um amor platônico
por Frida, até que criei coragem
e fui me declarar a ela...
[Menestrel]
Inicialmente,
ela propôs que ficássemos amigos
até nos conhecermos melhor, pois,
meio desconfiada, como sói acontecer
a meninas criadas com certa rigidez de costumes,
não acreditava em amor à primeira
vista. Então pensei que teria que
conquistá-la para que o nosso relacionamento
se concretizasse. Comecei dizendo-lhe uma
trovinha de Pascoal Carlos Magno, que sabia
de cor: "Ama ! que importa a tristeza,/
do desespero que vem?! / O Amor - única
riqueza/ daquele que nada tem !" Notei
que ela gostava de poesias e pediu-me que
lhe fizesse alguns versos de amor só
para ela. Compus um acróstico, que
não sei se ficou muito legal: Foste
uma luz que surgiu,/ Risonha no meu caminho,/
Irradiando a florescência,/ Das ondas
de tanto frio,/ A me aquecer a existência...
Hoje, estamos enamorados e, ao que parece,
se prenuncia um convívio feliz de
compreensão mútua e cumplicidade
responsável...
[queno]
Temos
algumas diferenças, é claro.
Mas nada que prejudique o nosso cotidiano,
a não ser a paixão dela por
caninos. É, parece mentira mas Irma
é louca por caninos de todos os tipos.
Na casa que ela alugou quando veio pra Porto
Alegre tem cinco peludos. Ela usa aquelas
correntes que se dividem em várias
para passear com eles na Redenção
aos domingos. É uma pena, pois adoraria
passear com ela no meu parque predileto
em tardes ensolaradas. Mas você acha
possível sequer imaginar esta cena:
Eu, de bermuda, com a cicatriz na perna
a mostra, minha Irma, e seus brilhantes
e longos cabelos loiros, caminhando acompanhados
de animais horrendos, com suas línguas
de fora, patas enormes deixando pegadas
no mesmo caminho das marcas impressas por
meus pés de ser superior que sou.
Impossível. Sem contar na proximidade
que estariam, nesta cena, minhas pernas
dos dentes babados e pontudos daquele horroroso
pastor alemão que ela ama. Isto tem
dificultado um pouco. Às vezes chego
a me enganar, como fiz a pouco, pensando
que há compreensão mútua
no nosso relacionamento. Prefiro não
comentar, mas já deixei claro meu
desgosto pela sua criação
de monstros. Apesar de agradecido por ter
sido por causa daquela mordida que conheci
minha Frida, cultivo um ódio mortal
por qualquer cachorro, e acho que isto ainda
vai acabar com nosso amor. Enquanto vivermos
em casas separadas e eu puder apenas usufruir
de sua doçura, beleza e erotismo
(sim, você não imagina do que
ela é capaz entre quatro paredes)
vou conseguir manter firme nosso namoro.
Mas o dia em que tiver que acordar com latidos
e dentro de meus chinelos tiverem pelos,
que não os meus, eu vou sentir muito,
mas serei obrigado a dizer: ou eu, ou eles...
[radamanthys]
A
cada dia que eu passava ao lado de Frida,
via a necessidade de ficar cada vez mais
longe daqueles monstros felpudos. Minha
Fridinha sempre dizia para não dar
bola para eles. Eu de qualquer maneira tinha
que aturá-los, se eu amava realmente
ela, eu tinha que fazer este sacrifício,
e agora meu Deus, o que fazer? Frida me
convida para eu ir jantar na casa dela,
para conhecer sua vós, que é
especialista em doces alemães. Na
casa dela(confortável que só
ela).Chegando lá, cumprimento á
todos, mas o que detestei foi os felpudos
raivosos cheirando a minha perna, senti
aquele frio na espinha, e juro, novamente
eu me vi mordido por um cachorro. Aterrorizei,
só de pensar em aquela cena se repetir,
mas tudo foi calmo, até encontrar
o seu irmão, Michael. Tremi só
de pensar que ele estava chegando, pois
segundo Frida falou, Michael não
gostava de nenhum namorado de sua irmã,
e ainda por cima, pôs todos para correr...
[Thedy Corrêa]
Frida
resolveu marcar um jantar em sua casa e
assim proporcionar um encontro entre eu
e Michael. Macarrão ao molho de pelo
de cachorro e vinho barato. Cerveja quente,
para quem preferisse, e de sobremesa uma
bela ambrosia - presente enviado por sua
mãe, já que a própria
Frida não tinha nenhuma aptidão
para a culinária. Domingo, antes
do Fantástico ele chegou. Quando
eu cheguei, ele se recompunha do viagem
com um banho quente. - Frida, falaste com
ele a meu respeito? - Ainda não.
Por quê? - Sabe como é... A
fama de antipatizar com teus namorados...
ele é forte? - Não! É
magro que é um fiapo! De onde tu
tirou todo este medo? Realmente, a vergonha
por minha covardia caiu sobre mim como uma
bigorna da ACME (veja O Coiote e Bip-Bip).
- Desculpa minha insegurança, Frida...
Abre-se a porta e entra na sala um franzino
e simpático rapaz. Começamos
a conversar e fomos até acabar o
vinho ruim e a cerveja quente nos fazer
mal... - Pois é...- disse eu - e
agora, o que tu pretendes fazer aqui em
Porto Alegre? - Procurar emprego. - O que
tu fazia? - Eu era secretário do
General Aguiar... Lembra dele, não
é? Famoso lá nossa cidade!
Como eu poderia esquecer. General aposentado,
teve forte atuação nos bastidores
interioranos da ditadura. Dizem que era
possível ouvir em toda a cidade os
gritos das sessões de tortura que
ele promovia no quartel d0 3º de Infantaria.
Foram anos de terror! Depois disso, com
a abertura, ele se aposentou e acabou organizando
o crime e o tráfico de armas na fronteira.
Tudo isso, sob o manto da dignidade de ilustre
cidadão de nossa cidade, para encobrir
suas atividades espúrias e não
despertar suspeitas. Um anjo o homem...e,
o principal, dono da casa que invadi e acabei
abocanhado pelo terrível cão!
- Puxa - disse, entre nervoso e espantado
- tu trabalhavas para ele, é? - É...
ele me dispensou. Ficou louco depois que
um maldito delinqüente invadiu a sua
casa e matou o seu cachorro de estimação.
Sabe como é... ele gostava mais daquele
cachorro do que da própria família.
- Que pena! - engoli em seco. - O pior é
que, na noite em que tudo aconteceu, ele
tinha havia para encontrar com um amigo
de "negócios" que acabou
se envolvendo numa briga no Bar Celona,
que fica no centro... Não me surpreendo
em ouvir o nome do local ao qual eu compareci
naquela noite. Tudo começava a se
encaixar de maneira terrível! - Briga?
No bar? E aí? - perguntei com medo
de ouvir a resposta. - O cara se envolveu
na briga e saiu procurando por toda a cidade
o infeliz que ele tinha esmurrado. Ele queria
mais! Com isso ele não compareceu
ao encontro. Acabou sendo preso por desordem
e gerando um prejuízo assombroso
ao General. - Caramba... - eu suava frio-quente-frio-quente.
- O bandido foi para a cadeia jurando vingança
ao canalha da briga! Por causa dele até
eu saí prejudicado! Perdi meu emprego...
- Mas eu não entendi... O que o teu
emprego tem a ver com tudo isso e a loucura
do general? - Bom, o fato é que o
General se arruinou em virtude do prejuízo
e veio para cá também. Ele
ouviu falar que alguém que sabia
quem era o cara da briga tinha voado para
cá. A vida do General se resume agora
em encontrar o brigão e entregá-lo
ao "amigo" preso. Parece que é
a única forma de ele recuperar tudo
o que perdeu. Eu gelei. Alguém sabia
de tudo. Quem era eu. Quem era o brigão.
Quem era o cachorro. Tudo. Neste instante,
perdido em meus pensamentos, quase não
ouvi tocar a campainha. Notei apenas quando
Frida foi abrir a porta e disse: - Pode
entrar, ele está aqui. Minha boca
secou instantaneamente. Meu coração
deu um soco abrupto que eu jamais havia
sentido igual. Minha perna afrouxou. Minha
cicatriz ardeu. Limitei-me apenas a dizer...Boa
Noite, General.
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